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Resultados acima, projecao abaixo

A Salesforce divulgou resultados do primeiro trimestre fiscal que superaram expectativas: receita de US$ 11,13 bilhoes e lucro ajustado de US$ 3,88 por acao, contra US$ 3,12 esperados por analistas. Numeros solidos por qualquer metrica convencional.

O problema veio na projecao para o segundo trimestre. A empresa estimou receita de aproximadamente US$ 11,3 bilhoes, abaixo dos US$ 11,4 bilhoes que o mercado esperava. A diferenca parece modesta, mas o sinal foi suficiente para aprofundar uma queda acumulada de 33% no ano.

O contraste com a Snowflake, que no mesmo dia reportou crescimento de 33% e viu suas acoes subirem 37% no pos-mercado apos anunciar um acordo de US$ 6 bilhoes com a AWS, tornou a narrativa ainda mais dura para a Salesforce.

O fantasma dos agentes de IA

O que esta pesando sobre a Salesforce nao sao os resultados do trimestre, mas uma ameaca estrutural. Relatorios recentes da Bain e da Deloitte projetam que agentes de IA substituirao tarefas hoje cobertas por ferramentas de SaaS tradicional em um horizonte de 24 meses. O Bank of America reiniciou a cobertura da Salesforce com recomendacao de venda (Underperform), classificando a transicao como um “reset estrutural orientado por IA”.

A logica e direta. Empresas pagam licencas de SaaS por assento (por usuario, por mes). Se agentes de IA conseguem executar parte das tarefas que hoje justificam essas licencas, como preenchimento de CRM, triagem de tickets e geracao de relatorios, a demanda por assentos cai. O modelo de receita de US$ 11 bilhoes por trimestre depende de um volume de usuarios humanos que pode encolher.

A propria Salesforce reconhece o cenario. A empresa investiu pesado em seu produto Agentforce, tentando se posicionar como fornecedora de agentes de IA em vez de apenas software por assento. Mas a transicao de modelo de negocios e lenta, e o mercado nao tem paciencia para esperar.

O que isso significa para gestores de TI

Para CTOs e diretores de TI de empresas brasileiras de medio porte, o sinal e claro: o custo de ferramentas SaaS baseadas em assento deve ser questionado com mais rigor nos proximos ciclos de renovacao.

Algumas perguntas praticas que vale levantar agora:

  • Quantos assentos estao realmente ativos? A maioria das empresas paga por licencas que nao sao usadas. Antes de renovar, audite o uso real.
  • Quais tarefas repetitivas podem ser automatizadas? Agentes de IA ja conseguem fazer triagem de dados, preencher campos de CRM e gerar resumos de reunioes. Se parte da equipe usa o SaaS so para isso, o custo por assento nao se justifica.
  • O fornecedor esta migrando para precificacao por consumo? Snowflake, Datadog e outros players de dados ja cobram por uso, nao por assento. Essa tendencia deve se espalhar para categorias como CRM e produtividade.
  • Qual e o custo de troca? Lock-in em SaaS e real. Dados, integracoes e fluxos de trabalho tornam a migracao cara. Mas avaliar alternativas agora, antes de renovar contratos longos, evita surpresas.

O panorama mais amplo

O capital de risco global atingiu US$ 300 bilhoes no primeiro trimestre de 2026, com 80% direcionado a empresas de IA. Essa concentracao de investimento nao e especulacao: esta financiando ferramentas que competem diretamente com SaaS incumbente.

A Salesforce nao e a unica afetada. Qualquer empresa de software que cobra por assento e entrega tarefas que um agente de IA pode replicar enfrenta a mesma pressao. Para quem gerencia orcamento de TI, a leitura e que o custo de software por usuario deve cair nos proximos 2 a 3 anos, mas so para quem negociar ativamente e estiver disposto a integrar automacao em seus fluxos.

O momento de revisar seus contratos de SaaS e antes da proxima renovacao, nao depois.

Fontes